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"É assim que acaba", de Colleen Hoover

  • 19 de mai. de 2022
  • 8 min de leitura

Ao contrário de todos os livros que já li CoHo até agora, e pelo gênero literário pelo qual a autora é mais conhecida (romance), essa não é uma história de amor. Não é um romance sobre Lily e Atlas, ou sobre Lily e Ryle. É um livro sobre ciclos de violência, e a forma como impactam as vidas de mulheres. Por isso, já deixo aqui o trigger warning de violência doméstica, que é do que se trata essa obra, além do aviso de que não poderei escrever uma resenha honesta sobre esse livro sem revelar alguns spoilers.


Já no começo, pela dedicatória, sabemos que essa vai ser uma história dolorosa de ler, e que vai deixar uma impressão forte na gente. Porque é a história da família da própria autora. "Para meu pai, por fazer o que pôde para não mostrar o pior de si. E para minha mãe, por garantir que nunca víssemos o pior dele".


A autora escreveu com uma sensibilidade impressionante, contrastando com uma sinceridade brutal, que me deixou arrepiada do início ao fim, resultando em muitas lágrimas quando cheguei no final, tanto por causa da história de Lily e por saber que é baseada na história de uma mulher real, de milhões de mulheres reais que não puderam ter o mesmo final otimista.

A história tem início no dia do funeral de seu pai, que sempre havia sido abusivo com sua mãe, até que sua doença o deixou fraco demais para continuar agredindo-a. Lily jamais entendeu as razões de sua mãe para não deixar seu marido violento, e por muitos anos a considerou uma mulher fraca por isso, e jurava que jamais se encontraria na mesma situação pois iria embora ao primeiro sinal preocupante. Nesse mesmo dia ela conhece Ryle, que futuramente se tornaria seu namorado.


À medida que seu relacionamento com Ryle avança, entretanto, e "acidentes" começam a acontecer com frequência preocupante, Lily sente na pele a dificuldade que sua mãe teve e que muitas mulheres têm de reconhecer a violência e porque não é fácil como pensava sair dessa situação.


Em muitos episódios, nos pegamos pensando da mesma forma da protagonista, tentando justificar as condutas de Ryle, já que, com exceção dos esparsos episódios de violência, ele era um namorado extremamente carinhoso e romântico. Fiquei perturbada quando percebi que essa era a intenção da autora, nos mostrando como é fácil permanecer em um cenário violento, e que agressores não são monstros óbvios 100% do tempo fáceis de reconhecer e dos quais é simples fugir.


Ao longo do livro, Lily nos transporta para cenas de sua infância por meio de passagens em seu diário, na época em que conheceu seu primeiro amor, Atlas, que hoje é um chefe de sucesso morando na mesma cidade. Atlas não é colocado como o salvador da nossa protagonista, mas como parte de uma rede de apoio que foi necessária para que Lily pudesse se recuperar e deixar seu parceiro violento. Seu final feliz não é uma recompensa por suas provações, e sim uma escolha de uma mulher que se ergueu e pode sair da situação em que se encontrava.


As notas da autora ao final do livro (vou transcrever trechos dela aqui) talvez tenham sido a parte mais triste do livro inteiro, mas também a mais corajosa. CoHo diz que queria escrever essa história para mulheres como sua mãe, vítimas de violência doméstica, mas também para pessoas que não compreendiam mulheres como ela. A própria Colleen escreve que era uma dessas pessoas, até a morte de seu pai fazê-la refletir sobre a história de sua família e que mesmo sofrendo, sua mãe jamais comentou sobre as agressões com a filha, apesar dela saber, para que pudesse manter um relacionamento com o pai.


O final de Lily, como mencionei, é extremamente otimista e uma mensagem de esperança: nossa protagonista é capaz de romper o ciclo de violência antes que se tornasse um padrão em sua família. A narrativa também é repleta de passagens de alerta e reflexão para desconstruir o pensamento social sobre a violência doméstica — de que é fácil para a mulher denunciar, para ir embora, de que seu comportamento de alguma forma teria incitado agressões, de que são mulheres fracas por ficarem em um relacionamento violento.


NOTAS DA AUTORA (trechos - cuidado, spoilers!)

"A lembrança mais antiga de minha vida é de quando eu tinha 2 anos e meio (...). Eu me lembro de escutar meu pai gritando, então espiei de trás do lençol bem no instante que ele pegou nossa televisão e jogou em minha mãe, derrubando-a no chão.

Ela se divorciou antes de eu completar 3 anos. Depois disso, toda lembrança que eu tenho do meu pai é boa. Ele nunca perdeu a cabeça comigo ou com minhas irmãs, apesar de ter feito isso tantas vezes com minha mãe.

(...)

Quando decidi escrever esta história, primeiro pedi permissão à minha mãe. Falei que queria escrevê-la para mulheres como ela. Também queria escrevê-la para as pessoas que não compreendem muito bem mulheres como ela.

Eu era uma dessas pessoas.

A mãe que eu conheço não é fraca. Não é alguém que consideraria perdoar um homem que a tratou mal em diversas ocasiões. Porém, enquanto eu escrevia este livro e entrava na mente de Lily, logo percebi que as coisas não são tão simples quanto parecem.

(...)

O primeiro incidente entre Ryle e Lily na cozinha foi o que aconteceu na primeira vez que meu pai bateu em minha mãe. Ela estava preparando um ensopado, e ele tinha bebido. Então tirou o ensopado do forno sem usar uma luva. ela achou engraçado e riu. De repente, ele a atingiu com tanta força que ela voou para o outro lado da cozinha.

Minha mãe decidiu perdoá-lo por esse único incidente, porque seu arrependimento e seu pedido de desculpas pareceram convincentes. Ou, pelo menos, suficientemente convincentes a ponto de que lhe dar uma segunda chance doesse menos que abandoná-lo de coração partido.

Com o tempo, os incidentes que se seguiram foram semelhantes ao primeiro. Meu pai sempre demonstrava remorso e prometia nunca mais fazer aquilo. Finalmente chegou ao ponto em que ela sabia que as promessas não valiam nada, mas àquela altura já era mãe de duas filhas e não tinha dinheiro para abandoná-lo. E, diferentemente de Lily, minha mãe não teve muito apoio. Não havia nenhum abrigo para mulheres. Naquela época, a ajuda do governo era quase nula. Deixá-lo significaria que não teríamos onde morar, mas, para ela, isso era uma alternativa melhor.

Meu pai faleceu há vários anos, quando eu tinha 25 anos. Ele não foi o melhor pai. Certamente não foi o melhor marido. Mas, graças à minha mãe, pude ter um relacionamento muito próximo com ele, porque ela seu os passos necessários para destruir o padrão antes que o padrão nos destruísse. E não foi fácil. Ela o largou pouco antes de eu completar 3 anos e de minha irmã mais velha fazer 5. Passamos dois anos inteiros vivendo à base de feijão e macarrão com queijo. Ela era uma mãe solteira sem formação universitária, criando duas filhas sozinha, sem praticamente nenhuma ajuda. Mas seu amor por nós a fortaleceu a ponto de que conseguisse dar esse passo aterrorizante.

De forma alguma minha intenção é usar a situação de Ryle e Lily para definir violência doméstica. Nem usar o personagem de Ryle para definir características da maioria dos agressores. Cada situação é diferente. Cada resultado é diferente. Escolhi moldar a história de Lily e Ryle baseada na história de meu pai e de minha mãe. Pensei em Ryle com base em vários aspectos de meu pai. Eles são bonitos, gentis, engraçados e inteligentes... mas tem momentos em que se comportam de forma imperdoável.

Moldei Lily com base em vários aspectos de minha mãe. Ambas são mulheres afetuosas, inteligentes e fortes que simplesmente se apaixonaram por homens que não mereciam seu amor de jeito algum.

(...)

No passado, eu dizia sempre que escrevia só para entreter. Não escrevo para educar, persuadir ou informar.

Mas este livro é diferente. Para mim, não foi entretenimento. Foi a coisa mais difícil que já escrevi. Às vezes, eu queria apertar a tecla Delete e desfazer a maneira como Ryle tratou Lily. Quis reescrever as cenas em que ela o perdoava, e quis substituí-las por uma mulher mais resistente, uma personagem que tomava todas as decisões certas em todos os momentos certos. Mas não era sobre esses personagens que eu estava escrevendo.

Não era essa a história que eu estava escrevendo.

Eu queria escrever algo realista relacionado à situação de minha mãe, que é uma situação enfrentada por muitas mulheres."


Citações
"Ela vai sentir pena de mim. Não vai entender por que nunca o abandonei. Vai questionar como deixei as coisas chegarem a tal ponto. Vai perguntar as mesmas coisas que eu me perguntava sobre minha mãe quando a via na mesma situação. As pessoas passam tanto tempo se perguntando por que as mulheres não vão embora... Onde estão as pessoas curiosas do porquê os homens serem violentos? Nao é aí que deveria estar a culpa?"
"Estou apaixonada por um homem que me machuca fisicamente. Não faço ideia de como pude chegar a este ponto, logo eu. Muitas vezes, quando era mais nova, eu ficava imaginando o que minha mãe pensava nos dias que meu pai lhe batia. Eu me perguntava como era possível ela amar um homem que a machucava. Que vivia lhe batendo. Que prometia nunca mais fazer aquilo. Odeio ser capaz de me identificar com ela agora."
"Não existem palavras que expressem o tamanho do ódio que sinto por ele. No entanto, de alguma maneira, no meio de todo o ódio, há argumentos dentro de mim. Começo a pensar em coisas do tipo "Mas eu não devia ter aquele ímã. Eu devia ter contado a verdade sobre a tatuagem desde o início. Não devia ter guardado os diários". Esses argumentos são a parte mais difícil. É algo que me corrói aos poucos, desgastando a força que o ódio me dá. Os argumentos me obrigam a imaginar nosso futuro juntos, e me mostram que existem coisas que eu poderia fazer para evitar esse tipo de raiva. Nunca mais vou traí-lo. Nunca mais vou guardar segredos. Nunca mais vou dar motivos para que ele reaja daquela maneira de novo."
"As pessoas que estão de fora de situações assim costumam se perguntar por que a mulher volta para o agressor. Li em algum lugar que 85% das mulheres voltam para situações violentas. Foi antes de eu perceber que era uma delas, e, quando vi essa estatística, considerei essas mulheres burras. Achei que eram fracas. Pensei isso várias vezes de minha própria mãe. Mas, de vez em quando, as mulheres voltam simplesmente porque estão apaixonadas. Eu amo meu marido. Amo tantas coisas nele... Eu queria que suprimir meus sentimentos pela pessoa que me machucou fosse tão fácil quanto eu julgava ser. Impedir o coração de perdoar uma pessoa que você ama é, na verdade, muito mais difícil que simplesente perdoá-la."
"Agora eu sou uma estatística. As coisas que pensei sobre mulheres como eu são o que os outros pensariam de mim se soubessem de minha situação. "Como ela pode amar o cara depois do que ele fez com ela? Como ela pode sequer considerar voltar para ele?" Acho triste saber que esses são os primeiros pensamentos que passam pela cabeça de uma pessoa quando alguém sofre violência. Não deveríamos sentir um desgosto maior pelos agressores que pelas pessoas que continuma os amando?"
"Não paramos de amar uma pessoa só porque ela nos magoou. Não são suas ações que magoam mais. É o amor. Se não houvesse amor ligado à ação, a dor seria um pouco mais fácil de suportar."
"(...)Não perca seu limite de vista. Por favor, não deixe isso acontecer. (...) Todos temos nossos limites, o que estamos dispostos a aguentar antes de arrebentarmos. Quando me casei com seu pai, eu sabia exatamente qual o era o meu limite. Mas aos poucos... a cada incidente... meu limite foi aumentando mais um pouco. E mais um pouco. Na primeira vez que seu pai me bateu, ele se arrependeu na mesma hora. Jurou que nunca mais aconteceria. Na segunda vez ele ficou ainda mais arrependido. Na terceira, foi mais que um golpe. Foi uma surra. E eu sempre voltava para ele. Mas, na quarta vez, foi só um tapa. E, quando isso aconteceu, fiquei aliviada. Lembro que pensei "pelo menos ele não me bateu desta vez, não foi tão ruim. (...) Todo incidente abala um pouco seu limite. Toda vez que você decide ficar, torna muito mais difícil abandoná-lo da próxima vez. Com o passar do tempo, você perde completamente seu limite de vista porque começa a pensar: "Eu já aguentei 5 anos, então porque não mais 5?"
"Por mais que seja uma escolha difícil, nós destruímos o padrão antes que o padrão nos destrua. "
"Ciclos existem porque é doloroso acabar com eles. Interromper um padrão familiar é algo que requer uma quantidade astronômica de sofrimento e coragem. Às vezes, parece mais fácil simplesmente continuar nos mesmos círculas familiares em vez de enfrentar o medo de saltar e talvez não fazer uma boa aterrissagem. "




 
 
 

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