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"Pessoas Normais", de Sally Rooney.

  • 23 de set. de 2021
  • 6 min de leitura

Sinceramente, não fazia ideia de como começar essa resenha. Ainda não sei, na verdade, porque não sei como começar a sequer arranhar a superfície do que senti ao ler uma obra que mexeu tanto comigo — no bom e no mau sentido. Como explicar que, ao mesmo tempo que gostaria de mostrar o dedo do meio para Sally Rooney se a visse na rua pelas palavras que escreveu, também gostaria de lhe dar um beijo pelas mesmas palavras que causaram tamanho alarde pra mim?


O que posso dizer com toda certeza é: só lendo mesmo pra entender porque “Pessoas Normais” causou uma revolta tão apocalíptica na literatura contemporânea. O livro mais controverso que já tive o desprazer — ou prazer? — de ler.


"Era verdade o que dissera de Connell. Ele não tinha feito nada de ruim. Nunca havia tentado iludi-la, fazendo-a pensar que era socialmente aceitável: ela mesmo se iludira. Ele apenas a usara como uma espécie de experimento particular, e sua disposição para ser usada provavelmente o chocara. No final, ele sentia dó dela, mas ela também lhe causava repulsa."

Amando ou odiando, o livro vai te perseguir por muitas noites em claro, seja pelas cenas que te incomodaram, pela complexidade dos personagens que você odeia e depois ama numa questão de segundos, pela insegurança que a autora te causa, pelo incômodo, pela prosa singular que é tão direta quanto é metafórica, pelas simples frases que são tão assimiláveis à nossa própria vida nas piores situações possíveis.


Não me levem a mal. Pra mim, o livro está longe de ser bom. Mas acredito que não apenas os “bons livros” devam marcar um leitor, porque exclui uma gama de outras sensações que tivemos com os “livros mais-ou-menos” e os “livros ruins” e os livros “vou te queimar pra não ter que olhar na sua cara — ou capa — nunca mais”. Tamanha expressividade não deve jamais ser deixada de lado para que seja levada à superfície apenas pelos “livros bons”. Eventualmente tudo será agregado à nossa experiência literária.


E reconheço que o livro não tem bons personagens que pudessem indicar o motivo da fama da obra, tão aclamada que foi adaptada em série. Mas também não há personagens ruins. Tanto em sua construção, como em suas ações, o que temos é a evolução de duas pessoas em torno uma da outra que se encontram e desencontram ao longo de anos, saindo do ensino médio até a faculdade, e suas péssimas, ou questionáveis, ou controversas escolhas de vida enquanto amadurecem, influenciadas por sua saúde mental em colapso e pelas circunstâncias de sua criação por duas famílias completamente diferentes em uma cidade pequena no interior da Irlanda.

"Imaginara que ficando com ela se sentiria menos solitário, mas só conferiu à sua solidão um novo toque de teimosia, como se tivesse se plantado dentro dele e fosse impossível de matar."

Quis largar o livro tantas vezes, de raiva e incredulidade. Porque os personagens me incomodam, o enredo me incomoda, suas decisões me incomodam, mas me vi presa. Presa ao que pensava que iria acontecer no futuro de Connel e Marianne, presa ao que eu queria que acontecesse e presa ao rumo odioso que tantas coisas tomaram.


E ainda assim… talvez esse seja apenas um livro sobre a realidade do comportamento humano e todas as considerações (ou falta delas) que existem por trás do que realmente se passa pela mente de jovens em transição para a vida adulta, tudo escrito com o objetivo de trazer incômodo e estranheza. Lindamente escrito, na verdade.


Sally Rooney escreve diálogos sem pontuação, como se a fala humana não merecesse qualquer sinalização especial e fosse apenas a extensão natural dos pensamentos dos nossos protagonistas, jogadas de qualquer jeito no meio de parágrafos, sem travessão ou aspas, atrás de alguma vírgula e é só.


Apesar de muitas falas serem bastante pretensiosas para pessoas tão jovens — seguindo o “manual John Green de como escrever diálogos que adolescentes reais jamais diriam” — o que realmente salta aos olhos do leitor são os parágrafos de introspecção de Connel e Marianne, o que muitas vezes oferecem justificativas frágeis, mas reais, para seu comportamento, e um vislumbre da ansiedade e pensamentos pessimistas, depressivos, que permeiam seu raciocínio.

“Marianne tinha uma rusticidade que o invadiu por um tempo e lhe deu a impressão de que ele era como ela, de que tinham a mesma avaria espiritual indizível, e de que nenhum dos dois poderia jamais se adaptar ao mundo. Mas ele nunca foi avariado como ela. Ela apenas lhe dava a sensação de que sim.”

Por isso ainda continuo me perguntando se gostei ou não desse livro. Como posso ter gostado de uma obra que me causa tamanha revolta? Mas ao mesmo tempo, como posso não ter gostado quando tudo o que penso e vejo ultimamente me leva de volta à história que Sally Rooney escreveu tão crua e lindamente?


— Melhores quotes:

“Connell sentiu uma tristeza prazerosa dominá-lo, que quase o levou às lágrimas. Momentos de dor emocional chegavam assim, sem sentido ou, no mínimo, indecifráveis.” p. 30


“Em alguma semanas, Marianne vai morar com pessoas diferentes, e a vida vai ser diferente. Mas ela mesma não vai ser diferente. Será a mesma pessoa, presa no próprio corpo. Não existe lugar aonde possa ir que a liberte disso. Um lugar diferente, pessoas diferentes, o que importa?” p. 69


“[...] a mesma imaginação que ele usa como leitor é também necessária para entender as pessoas de verdade, e para se tornar íntimo delas.” p. 73


“Seu olhar o inquieta como antigamente, como se olhar no espelho, ver algo que não guarda segredos de você.” p. 84


“Tem a sensação de que nem ela sabe com é a família, que nunca é convincente nas tentativas de descrevê-la, que oscila entre exagerar o comportamento dos parentes, o que lhe gera culpa; ou minimizá-lo, o que também lhe provoca culpa, mas uma culpa diferente, mais voltada para dentro.” p. 121


“Reflexivamente, sempre imaginava formas de se infligir danos graves quando angustiado. Parecia acalmá-lo por um tempinho, o ato de imaginar uma dor muito pior e mais absoluta do que aquela que de fato sentia, talvez apenas a energia cognitiva requerida, a pausa momentânea em sua linha de pensamento, mas depois se sentia ainda pior.” p. 132


“Quando ela pensa no pouco respeito que tem por ele, se acha repulsiva e passa a se odiar, e esses sentimentos desencadeiam nela um desejo avassalador de ser subjugada e, de certo modo, destruída.” p. 142


“Como seu sentimento por ela poderia jamais ser igual ao sentimento que tinha por outras pessoas? Mas parte do sentimento era saber do terrível poder que tivera sobre ela, e continuava tendo, e não conseguia antever perder um dia.” p. 171


“Tantas coisas acontecem às escondidas entre as pessoas de qualquer modo. Que tipo de pessoa ele seria se isso acontecesse agora? Alguém muito diferente? Ou exatamente a mesma pessoa, ele mesmo, sem nenhuma diferença.” p. 181


“É difícil saber se Marianne gosta de ouvir essas coisas; deseja ouvi-las, mas a essa altura já tem consciência de ser capaz de desejar em certo sentido o que não quer.” p. 190


“Na escola, estava acima das trocas sinceras de capital social, mas sua vida de universitária revelava que se alguém da escola tivesse se disposto a falar com ela, ela teria se comportado tão mal quanto todo mundo. Ela não tem absolutamente nada de superior. ” p. 195


“Seria de fato capaz de fazer as coisas pavorosas que faz com ela e ao mesmo tempo acreditar que está agindo por amor? Seria o mundo um lugar tão perverso a ponto de o amor ser indistinguível das formas mais baixas e mais abusivas de violência?” p. 198


“Bom, aqui estou, no chão, ele pensou. A vida é muito pior aqui do que seria na cama, ou em um lugar totalmente diferente? Não, a vida é exatamente igual. A vida é a coisa que você traz consigo dentro da própria cabeça.” p. 200


“Se as pessoas pareciam agir despropositadamente no luto, era porque a vida humana era despropositada, e esta era a verdade que o luto revelava.” p. 224


“Agora sabe que com o passar dos anos Connell vem aos poucos ajustando-se mais ao mundo, um processo de adequação que tem sido regular, ainda que doloroso vez por outra, enquanto ela mesma vem se degenerando, se distanciando cada vez mais da sanidade, virando algo irreconhecível de tão degradado, e eles não têm absolutamente nada mais em comum." p. 236


“Falta a ela um instinto primitivo, autodefesa ou autopreservação, que torna os outros seres humanos compreensíveis. Você se escora esperando resistência e tudo se dissolve bem na sua frente. Porém, se deitaria e morreria por ela a qualquer momento, o que é a única coisa que sabe a respeito de si mesmo que lhe provoca a sensação de que ele é uma pessoa que vale a pena.” p. 245


“[...] as pessoas são muito mais conhecíveis do que imaginam ser. Mas ainda assim ele tem algo que falta a ela, uma vida interna que não inclui a outra pessoa.” p. 255


“Como era estranho se sentir tão completamente sob o controle de outra pessoa mas, ao mesmo tempo, como era normal. Ninguém pode ser totalmente independente dos outros, então porque não abrir mão da tentativa, ela ponderou, ir correndo na direção contrária, depender dos outros para tudo, deixar que dependam de você, por que não. Sabe que ele a ama, já não questiona mais isso.” p. 259


“O que têm agora eles nunca mais poderão ter. Mas para ela a dor da solidão não vai ser nada se comparado à dor que costuma sentir, de não valer nada. Ele lhe trouxe a bondade como uma dádiva, e agora isso é parte dela. Enquanto isso, a vida se abre à frente dele em todas as direções ao mesmo tempo. Fizeram muito bem um ao outro. De verdade, ela pensa, de verdade. As pessoas podem mudar as outras de verdade.” p. 262



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