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"Kim Ji young, Born 1982", de Cho Nam-Joo

  • 27 de out. de 2021
  • 5 min de leitura

A obra, lançada em 2016, transformou-se em um bestseller internacional assim que foi traduzida para o inglês, e causou controvérsias em seu país de origem, Coréia do Sul, por se tratar de uma narrativa feminista demonstrando a discriminação de gênero presente em sua sociedade extremamente conservadora. Confira a sinopse:


"Quem é Kim Jiyoung?

Kim Jiyoung é uma garota nascida de uma mãe cuja sogra queria um menino. Kim Jiyoung é uma irmã que tem que dividir o quarto enquanto seu irmão tem um quarto apenas para si. Kim Jiyoung é uma jovem cercada por professores que vêem as meninas como presas. Kim Jiyoung é uma filha cujo pai a culpa quando é assediada tarde da noite. Kim Jiyoung é uma boa estudante que não é recomendada para estágios em detrimento de seus colegas homens. Kim Jiyoung é uma funcionária modelo mas que não é considerada para promoção de cargo na empresa em que trabalha. Kim Jiyoung é uma esposa que desiste da sua carreira e independência por uma vida doméstica."


Kim Jiyoung largou sua carreira para se dediar exclusivamente à maternidade. Não tem mais tempo para si, não tem hobbies e não faz o que gosta, está deprimida, descrente e com raiva de sua situação atual. Agora, Kim Jiyoung está agindo de forma estranha: é acometida por episódios em que passa a agir e falar como outra pessoa, encarnando a personalidade de outras mulheres — sua mãe, sua amiga, uma conhecida de seu marido que já morreu.


A história de Kim Jiyoung é a história de milhões de mulheres, suas angústias, decisões, suas tristezas e decepções, resultantes de uma vida tentando e falhando na luta contra os desafios que lhe foram impostos em face de seu gênero, vivendo em um país predominantemente conservador. Há uma similitude entre Jiyoung e qualquer outra mulher, quer elas questionem seus papéis sociais ou não, que abre espaço para críticas acerca das escolhas que são oferecidas às mulheres: estudos, casamento, carreira, maternidade, as quais muitos vezes são excludentes entre si e que tem repercussões imediatas na forma como se percebem e são percebidas por outros.

"O mundo tinha mudado bastante, mas as pequenas regras, contratos e costumes continuavam, o que significa que o mundo dificilmente tinha mudado de verdade." pg. 91

Temos a narrativa de sua vida desde a infância até a fase adulta, contada inicialmente por seu marido e em seguida por seu psiquiatra, que analisa seu comportamento para tentar entender a razão do problema. Kim Ji Young cresceu sendo alvo de estereótipos que a condicionaram a uma vida determinada por regras sociais extremamente arraigadas na sociedade coreana, assim como as mulheres à sua volta, levando Kim Ji Young à sua crise de identidades.


Começa questinando sua criação, na qual seu irmão recebia tratamento privilegiado, colocando Jiyoung e sua irmã em segundo plano. "Se tinham dois guarda-chuvas, as meninas dividiam. Se tinham dois cobertores, as meninas dividiam. Se eram dois doces, as meninas dividiam. Não ocorreu à Jiyoung na época que seu irmão estava recebendo tratamento especial." A própria mãe de Ji Young - igualmente limitada em oportunidades por ter escolhido a maternidade - tentou por muito tempo oferecer oportunidades às meninas da maneira que pôde, apenas para ser criticada por sua sogra e conhecidos.


Na escola, os professores faziam insinuações e gestos às alunas, e estas eram constantemente advertidas dos perigos que corriam por não usarem o uniforme da maneira correta - era sua responsabilidade não incutir "vontade" nos outros ao não se vestir adequadamente. Além disso, apesar de não saberem exatamente o porquê, os meninos sempre tinham vantagem, “tudo começava pelos meninos, e aquilo parecia a coisa mais natural do mundo”.


Alguns anos adiante, na faculdade, outra estrutura podava ainda mais as suas oportunidades e escolhas. Jiyong era uma estudante dedicada, que tirava boas notas e era participativa. Apesar disso, apenas os estudantes do sexo masculino eram indicados por professores a projetos de estágio. Sua luta para conseguir um bom emprego em uma empresa logo antes de se formar — costume de universitários coreanos, que são escolhidos para vagas antes de terminarem a graduação — encontrava obstáculos implícitos e, muitas vezes, quase óbvios em entrevistas de emprego, com perguntas inbuídas de estereótipos direcionadas apenas às concorrentes femininas.


Os desafios de Ji Young continuaram tão logo foi selecionada para uma vaga em uma pequena empresa, enfrentando julgamentos dos mais variados temas de seus colegas de trabalho e recebendo menos que eles pelas mesmas tarefas. Perdia oportunidades e promoções pelo simples fato de seus superiores não acharem que mulheres podem se comprometer a cargos importantes a longo prazo em razão da escolha de algumas pela maternidade posteriormente.

"As mulheres implicitamente assumem os serviços e tarefas menores sem serem pedidas, enquanto os caras nunca o fazem. Não importa que eles sejam mais novos ou inexperientes — eles nunca fazem nada que não são pedidos para fazer. Mas porque então as mulheres simplesmente assumem essas tarefas?"

Mesmo notando todas essas "pequenas" injustiças, o comportamento de Ji Young e das outras mulheres em relação à elas era de aceitação, algo que aos poucos, ao longo de sua vida, Ji Young questiona e internaliza sua raiva em direção aos estereótipos que a limitam em sociedade e a indiferença dos outros com relação a isso. Ela questiona, por exemplo, por que ela e o marido deveriam ter filhos se não possuem tempo nem dinheiro para criá-los, e questiona quando o marido sugere que ela deveria pedir demissão quando sua filha nascesse, interrompendo sua carreira e confinando-a aos padrões que sempre observou e se ressentiu quando se tratava de outras mulheres.

"Todos os campos têm seus próprios avanços tecnológicos e evoluem com o objetivo de reduzir a quantidade de trabalho físico necessário, mas as pessoas são particularmente relutantes em admitir que a mesma afirmativa também vale para o trabalho doméstico. Desde que ela se tornou uma dona de casa em tempo integral, começou a notar que existia uma atitude polarizada no que tange ao trabalho doméstico. Alguns o diminuiam como um "ficar à toa em casa", outros o glorificavam como "trabalho que sustenta a vida da família", mas ninguém tenta calcular seu valor monetário. Provavelmente porque no momento que colocamos um preço em algo, alguém tem que pagar."

Apesar de ser uma leitura leve e rápida — não chega a ter 200 páginas — fiquei extremamente nervosa e com raiva lendo esse livro. Mas digo isso no bom sentido, porque a autora conseguiu sintetizar na vida de Jiyoung uma gama de desafios enfrentados por mulheres, e que poderiam ocorrer de maneira isolada ou todos de uma vez, em qualquer país. Penso que sua intenção tenha sido essa mesma — não importa quem esteja lendo, a narrativa vai trazer incômodo porque é, de fato, uma situação terrível que é a regra, e não a exceção, para as mulheres, e vai instigar o leitor a contestar a estrutura social que as aprisiona em papéis pré-determinados e que impõe as "escolhas" que realmente estão disponíceis a elas.




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