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Resenha: Herdeiras do mar - Mary Lynn Bracht

  • 3 de jul. de 2020
  • 4 min de leitura

E lá vem a TAG Inéditos mais uma vez me tirar do chão com outra obra maravilhosa e uma edição lindíssima para seus assinantes. Desde que comecei a receber as caixinhas, cada mês eu recebi um livro que me apresentou um país ou uma cultura nova, e a do mês de março me levou direto para a Coréia sob ocupação japonesa e suas consequências diretas nas futuras gerações das famílias coreanas que sobreviveram às atrocidades da 2ª Guerra Mundial e da Guerra da Coréia logo em seguida.


As irmãs Hana e Emiko nasceram em uma família de haenyo, mulheres da Ilha Jeju que passam horas de seus dias mergulhando no mar em busca de pesca para sustentar suas famílias e abastecer os mercados. Em uma sociedade patriarcal como a coreana, as haenyo se destacam pela estrutura familiar matriarcal, na qual são as mulheres as principais provedoras, e passam seus conhecimentos e sua profunda conexão com o mar de mãe para filha. A família vivia relativamente bem, mesmo convivendo diariamente com as atrocidades que os militares japoneses cometiam contra o povo coreano, até o dia em que Hana, para salvar sua irmã, é levada por um soldado japonês para servir de "mulher de consolo" em um bordel na Manchúria. A partir daí, a narrativa se alterna entre Hana, em 1943, e Emi, em 2011, que carrega o peso da culpa e de memórias que perpassam duas guerras.


O livro conta de forma bem crua e realista a experiência de duas mulheres em um período de conflito político e social de seu país. O tráfico de mulheres coreanas pelas tropas japonesas foi uma das piores atrocidades de guerra já cometidas, mas foi apenas em 1991 que a primeira sobrevivente coreana quebrou o silêncio sobre a exploração e os abusos sofridos pelas "mulheres de consolo", escancarando o que por décadas foi ignorado como sendo um dos maiores esquemas de tráfico humano da história - estima-se que cerca de 200 mil mulheres coreanas tenham sido sequestradas e forçadas à prostituição nos países ocupados pelo Japão no século 20.

"Palavras são poder. [...] Quanto mais palavras você conhece, mais poderoso você fica. É por isso que os japoneses proibiram nossa língua nativa. Limitando nossas palavras, eles estão limitando nosso poder."

Foi extremamente difícil ler os capítulos narrados por Hana; as diversas passagens descrevendo o comportamento desumano com a qual as mulheres eram tratadas e as cenas de estupro, eu passava por todas lacrimejando, indignada pelo fato de que a história de Hana é otimista se comparada ao destino que tiveram outras milhares de mulheres durante a ocupação japonesa, que com o fim da guerra foram esquecidas e abandonadas à própria sorte no país para o qual foram mandadas e a maioria acabou morrendo por causa dos abusos físicos e psicológicos que sofreram.


Além disso, de forma alguma Emi teve a vida mais fácil que a da irmã. Viveu durante a ocupação japonesa até seu fim, para depois sentir na pele as cicatrizes deixadas pelo massacre da Ilha Jeju, seguido pela Guerra da Coreia, de 1950 a 53, que impactou as futuras gerações de sua família de forma extremamente cruel, apesar de manter isso em segredo dos filhos, o que acaba comprometendo seu relacionamento com eles. Esse silêncio é um aspecto cultural coreano, que acaba suprimindo a narrativa de muitas mulheres sobre suas experiências traumáticas.

"A vergonha que ela sente é totalmente enraizada e não tem nada a ver com a prostituição forçada de sua irmã. É mais profunda do que isso e se tornou uma parte dela que ela sabe que nunca vai desaparecer. Vergonha de ter sobrevivido a duas guerras enquanto os outros à sua volta sofreram e morreram, vergonha de nunca ter se pronunciado por justiça, e vergonha por continuar vivendo quando nunca entendeu de fato o sentido da vida."

A autora utiliza essa perspectiva para inserir uma crítica à subdocumentação das experiências das mulheres do mundo todo em cenários de conflito ao longo da história, e também chama a atenção para o fenômeno da utilização do estupro como arma de guerra desde o início dos tempos. Mary Lynn Bracht escreve nas notas do final do livro:"a lista de mulheres que são estupradas em tempos de guerra é longa, e vai continuar crescendo a menos que nós incluamos o sofrimento das mulheres em tempos de guerra em livros de história, que recordemos em museus as atrocidades cometidas contra elas e que lembremos das mulheres e garotas que perdemos com a construção de monumentos em sua honra".



É uma história extremamente triste e nada leve, mas também bastante envolvente e didática, como uma aula de história entrelaçada a uma breve apresentação da cultura coreana e às angústias e esperanças das duas protagonistas lutando contra toda a violência e abusos que a guerra impõe às mulheres. A obra ainda oferece uma visão muito interessante sobre as haenyo remanescentes de Jeju, que até hoje movimentam a economia da ilha com a pesca e atraem muitos turistas.


Todos esses detalhes foram muito bem desenvolvidos, adicionados à história em pontos chave da trama de forma que não negligenciassem o principal enredo. Acho importante destacar esse detalhe, já que percebo que muitos escritores acabam "pausando" a história em momentos inoportunos para inserir um background histórico sem muito planejamento nem harmonização com a narrativa, mas no caso de Herdeiras do mar isso foi muito bem feito, sem dar essa impressão de interrupção. Me emocionei com cada passo da trajetória das irmãs, e chorei pra caramba pela triste realidade por trás desse relato fictício.



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