Resenha: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
- 7 de mai. de 2021
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Há dias tento colocar em palavras o motivo de A Casa dos Espíritos , da autora chilena Isabel Allende, ter causado tamanho impacto em mim. Seria apenas por causa do seu modo premonístico de escrita? A descrição crua de uma realidade décadas distante da nossa, mas que em muito espelha nossa própria sociedade, nosso próprio país? Seria essa família, que por três gerações de mulheres me cativou com suas diferentes paixões, ambições, derrotas e perdas?
Me pergunto se o que tornou Isabel a escritora fenomenal que é foram suas experiências de vida como asilada, refugiada, imigrante, ou se o talento para cavar tão fundo na alma de um leitor sempre esteve ali, à espera da grande oportunidade de apresentar seu trabalho para o mundo. Talvez meu choque interminável por ter terminado essa obra prima seja porque nunca li nada como A casa dos espíritos antes.
Não há um enredo muito específico, apenas a saga da Família Trueba desde seu estranho começo. A história é apenas permeada por marcos históricos, o suficiente para sabermos que é muito provável que se passe no Chile no século 20, mesmo que a sinopse apenas situe a narrativa "em algum lugar da América Latina".
Pode parecer um enredo raso, mas na verdade é um dos livros mais ricos que já li, com uma quantidade impressionante de detalhes, que de novo e de novo impõe questionamentos acerca de protagonistas em obras literárias - não existem mocinhos ou vilões. Assim como não há realmente personagens "secundários", apesar de a maioria parecer rondar as três mulheres Trueba pelas gerações. Digo isso porque, ao longo do anos, até mesmo personagens que poderiam ser dados como insignificantes naquele momento, reaparecem décadas depois para mudar a história da família ou do país. Podem perceber quando forem ler, nada que a autora escreve é em vão ou coincidência. Tudo tem um motivo de estar inserido ali.

Allende é bastante enfática quanto à essa real natureza do ser humano não ser dicotômica, mas bastante distorcida e plural, diáfana. A natureza humana que ela retrata é bruta e real, mostrando como todos podem estar tanto certos como errados em momentos diferentes de suas vidas. Mas é claro que conhecendo seu passado e suas vivências, Isabel colocaria em destaque a jornada das mulheres da família, que acompanham os acontecimentos e revoluções de seu tempo desafiando costumes à suas maneiras e atendo-se aos seus ideais, que acabam por escancarar suas personalidades mais para o leitor do que para os próprios integrantes de suas famílias.
O mais interessante é como a autora consegue conectar essas três gerações de mulheres Trueba de forma tão singular, como se elas complementassem ao longo dos anos à narrativas das outras, mesmo antes de terem nascido, e a história acaba se construindo em torno desses laços.
A personagem que para mim foi a mais emblemática, e a responsável por originar a casa que dá nome ao livro, Clara clarividente, que iniciou a saga da família Trueba quando anunciou a morte de um membro da família semanas antes de acontecer, e que por causa desse infortúnio do destino acabou por se casar com o antigo noivo de sua irmã, Esteban Trueba. Desde pequena ela apresenta habilidades sobrenaturais, que na verdade nunca buscou esconder e trata como algo corriqueiro. Todos que a conhecem sabem de sua tendência a sair flutuando pela casa e mover objetos sem tocar neles. Por causa disso é a personagem que até o fim carrega nas costas o surrealismo mágico da narrativa, e que muitas vezes foi a ponte entre os integrantes de sua família, principalmente entre seus filhos e seu marido conservador e por vezes violento.
Ela ressignificou todas as experiências de sua vida e movimentava a história com suas premonições e seus espíritos, e transformou a grande casa da esquina em um santuário da arte e do pensamento livre para desajustados e excluídos da sociedade. Acompanhar sua evolução até a velhice foi um dos maiores prazeres literários desta leitora.
Em seguida temos Blanca, a filha de Clara e do Senador Trueba, que ousou se apaixonar pelo empregado de seu pai com ideias revolucionários socialistas na fazenda Las Tres Marías, e a que teve a vida mais injustiçada, muitas vezes resignando-se à sua situação em troca de uma estabilidade tanto financeira quanto emocional para preservar sua paz e sua família, sacrifício que nunca alcançava a vida de seus irmãos Jaime e Nicolás. Talvez o maior exemplo de como as mulheres eram reféns das vontades dos homens da família, e que suas vidas eram meras mercadorias de troca por vantagens para seus pais ou família.

Temos na terceira geração a jovem Alba, tão mais parecida com Clara do que com sua própria mãe, a menina de cabelos verdes capaz de amolecer até mesmo do coração violento e egoísta de seu avô. Sua passagem no livro não foi permeada por todo o misticismo que envolvia a presença da avó, mas foi igualmente marcante devido ao período histórico no qual está inserida: a ditadura militar (idêntica aos moldes que se deu o golpe de Pinochet, no Chile). Talvez a personagem mais idealista do livro, reunindo traços de todas as mulheres de sua família que a moldaram na jovem, com amores igualmente complicados e incertos, e a que mais sofreu nas mãos do regime ditatorial.
Realmente tive a impressão de conhecer intimamente cada integrante da família. Houve acontecimentos chave cujas consequências apenas seriam sentidas décadas depois, nas próximas gerações. Constantemente me vinha à mente acerca da teoria do caos, o famoso "efeito borboleta", principalmente quando vamos chegando no final da narrativa e tudo, desde antes de Clara conhecer Esteban, desde antes mesmo da própria formação da família Trueba, converge para o golpe militar e o desenvolvimento das figuras por trás das maquinações que planejaram o levante contra o Presidente popular da época, eleito pela elite como o inimigo número 1 do povo pelos ideais de esquerda que representava. Muitos previam o que iria acontecer, alguns apoiaram, e uma grande maioria não pensava que apoiar aquele regime significaria ter que conviver diariamente com as barbaridades que se seguiram.
A história se intercala entre passagens narradas por Esteban Trueba - definitivamente não foram as minhas favoritas, pois o senador tem um ponto de vista extremamente conservador e machista sobre muitos ocorridos - e por uma outra narradora, misteriosa, que apenas é revelada nas páginas finais da trama, fechando o ciclo histórico que é semelhante ao de milhares de outras famílias latino-americanas no contexto ditatorial, o que também oferece ao leitor uma certa intimidade com os diversos personagens. Com certeza, foi promovida a uma das minhas obras preferidas, e consigo entender porque Isabel Allende sempre estará no bojo de autores atemporais que transformam leitores com seus livros.




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