Resenha: Os sonhadores - Karen Thompson Walker
- 25 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de ago. de 2020

"No começo eles culpam o ar.[...] O que quer que seja, assoma sobre eles em silêncio: uma sonolência súbita, um fechar de olhos. A maioria das vítimas é surpreendida em sua própria cama."
"Os sonhadores" é o livro enviado pela TAG no mês de abril, e demorei pra criar coragem pra começar porque 1º) não tenho muita afinidade com sci-fi e 2º) por um tempo achei que seria de certa maneira mórbido ler a obra durante a pandemia mundial do COVID-19, uma vez que a premissa de toda a história orbita em torno de uma cidade acometida por uma epidemia misteriosa. APESAR DISSO, fiquei deveras embasbacada e realmente surpresa com o tanto que gostei da premissa, mas principalmente atordoada com a conclusão, e vou contar a vocês o porquê.
Em uma pequena cidade universitária chamada Santa Lora, uma estranha doença tem início na faculdade, que faz com que a pessoa contaminada caia em um sono do qual não é possível sair. Os afetados compartilham um estranho sintoma em comum: por baixo das pálpebras, seus olhos remexem incessantemente, sinal de que a pessoa está no sono REM, sonhando - sem parar. Constata-se que há mais atividade na mente dos "dormidos" do que já se registrou em qualquer cérebro humano - acordado ou adormecido. Nas semanas que se seguem, a cidade vai sucumbindo ao pânico e à histeria ao se ver isolada do resto do mundo por causa do letal vírus do sono.
"Sempre há lacunas nessas narrativas. Um limite para o que pode ser conhecido. Em alguns tipos de rachaduras, a especulação é a única coisa que cria raízes."

A partir daí, podemos acompanhar a progressão da epidemia pela perspectiva de diversos cidadãos que a autora introduz, circulando pela cidade e coletando narrativas para apresentar por vários pontos de vista como a crescente onda de medo, paranoia e isolamento afeta a vida das pessoas e seu comportamento em um cenário incerto de crise. Apesar de introduzir muitos personagens, com pouca ou nenhuma conexão entre si, a autora desenvolve mais a narrativa de uns do que outros, dentre eles: Mei, a colega de quarto da primeira vítima da doença do sono; Sara e Libby, filhas de um sobrevivencialista tentando resistir vivendo sozinhas após o pai ter sido acometido pelo vírus; e Ben, pai de uma recém nascida que passa os dias envolto pelo pânico de dormir e não conseguir mais acordar para cuidar de sua filha.
Como a história segue na direção inevitável de que todos esses personagens eventualmente irão sucumbir ao sono, o enredo perde um pouco da tensão que a autora buscou estabelecer desde o início, mas de forma alguma deixa de nos pegar de surpresa, uma vez que além das incógnitas que rodeiam essa epidemia também expõe a complexidade das relações entre as pessoas e suas decisões diante do cenário caótico em que estão vivendo.
"É assim que a doença se alastra melhor: percorrendo os mesmos canais que o carinho, a amizade e o amor."
Karen Thompson Walker escreve lindamente, em metáforas, de um jeito fluído e direto, nada característico de outras obras de ficção científica que eu já tenha lido. Chamou minha atenção também o jeito diferente dela de narrar os acontecimentos no tempo presente dando a impressão que sabe o que vai acontecer em seguida, como se o vírus não fosse um mistério para ela e já tivesse visto o que acontece a Santa Lora no futuro.
Mas o que realmente fez minha cabeça explodir foi quando os "dormidos" começaram a acordar do estranho sono. Da mesma forma que a doença surgiu ela desapareceu, repentinamente e sem motivo, e o alívio pelo seu fim durou pouco, uma vez que aqueles que acordavam defrontavam-se com uma vida tão diferente dos sonhos onde ficaram por semanas, e apresentavam dificuldade para separar o que era a realidade do que quer que tenha sido o conteúdo de seus sonhos e voltar à normalidade de seus dias antes da doença.
"Se não podemos dizer que estamos sonhando quando estamos de fato sonhando, então, teoricamente, se estivéssemos sonhando neste exato momento, não teríamos como saber disso."
O livro apresentou tantas situações semelhantes ao que estamos vivendo agora, com a pandemia mundial do coronavírus, que parecia que eu estava lendo um relato verídico e não uma obra fictícia; não acho que teria tido impressões tão fortes do livro se o tivesse lido antes da pandemia, já que grande parte da primeira metade do livro temos a evolução da epidemia e a descrição dos caminhos de contágio do vírus.
No geral, a história conseguiu trabalhar muito bem a ideia da incompreensão acerca da mente humana e seus limites, explorando a consciência que temos da nossa própria existência e do que entendemos por possível e impossível. Pode ser porque, repito, não leio muitos livros de ficção científica, mas eu achei esse plot todinho genial, e vou ficar de olho pra comprar o outro livro da autora, também uma distopia.
"[...]como alguém pode dizer com certeza que a outra vida era um sonho, e não esta?"




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