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Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane Austen

  • 29 de abr. de 2020
  • 5 min de leitura

"Não posso reprimir meus sentimentos. A senhorita tem de me permitir dizer com quanto ardor eu a admiro e a amo."

Jane Austen é uma autora que o mundo inteiro coloca em um pedestal, devido à sua importância e influência na literatura do século 18/19 tanto por seu talento para o romance como pela simbologia do sucesso de uma mulher em um âmbito artístico dominado por homens. Todo esse peso fez com que eu adiasse a leitura de suas obras por anos, já que não tenho o costume de ler clássicos, admito que morro de medo deles, e não gosto muito de livros com o linguajar rebuscado de centenas de anos destoando do jeito contemporâneo de escrita com o qual estou familiarizada. Mas fico feliz demais por ter decidido ler "Orgulho e Preconceito" - tida como a obra mais famosa de Austen - que acabou por me surpreender, e de quebra afugentou um pouco do medo que eu tinha de livros clássicos. E finalmente tive a chance de conhecer os famosos protagonistas Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, apesar de não ter me encantado tanto por eles como imaginava.


O enredo trata daquele tipo de romance que teve início de uma relação de ranço e ódio mútuo. A chegada de dois jovens solteiros ricos, Sr. Bingley e seu amigo Sr. Darcy, à região onde mora a família Bennet é o ponto de partida para todo o desenrolar da narrativa. Em uma sociedade em que a única perspectiva de ascensão social para as mulheres era o casamento, a possibilidade de uma das irmãs conseguir fisgar um dos partidos faz com que a mãe das meninas empregue todos os seus esforços a apresentar Jane, a filha mais velha e sua favorita, aos cavalheiros em todas as oportunidades possíveis. No caso de Elizabeth, a segunda mais velha e considerada pelo pai a mais sensata e esperta das irmãs, casamento por conveniência nem passava por sua cabeça, o que fazia com que a sra. Bennet a considerasse um caso perdido. Com o aparente início de romance entre Jane e o sr. Bingley, não faltam ocasiões que fazem com que Elizabeth encontre o deplorável Fitzwilliam Darcy, e é aqui que temos a apresentação de um dos casais mais famosos da história da literatura.

"Eu não teria dificuldade de perdoar o orgulho dele, se ele não tivesse ferido o meu."

No começo, o sr. Darcy é inteirinho o homem nada cavalheiresco, rude e orgulhoso que Elizabeth percebe, tanto que eu não conseguia suportar os diálogos dele com a moça. Cada vez que ele abria a boca, deixava claro sua implicância e sentimentos hostis com relação ao status social dos Bennet devido à condição de baixa renda da família em comparação com a sua. Qualquer interação entre os dois aumentava o ódio que ambos nutriam em relação ao outro, intensificado tanto pelo orgulho imenso como pelo preconceito dos dois com relação à posição social do outro, amplificado a tal ponto que apenas na segunda metade do livro é que vemos uma evolução nesse relacionamento estranho com a descoberta de segredos que mostram aos dois como estavam errados acerca da personalidade e valores do outro. Já dá pra imaginar de onde a autora tirou o título da obra, não é mesmo?

Assim, os sentimentos de Elizabeth começam a florescer depois de certos escândalos virem à tona, um sobre o "inimigo" do sr. Darcy, e outro posteriormente envolvendo uma das irmãs mais novas da moça. As circunstâncias em volta dos acontecimentos os aproximam e acaba por contradizer tudo que Elizabeth achava que sabia sobre o cavalheiro, mas principalmente sobre si mesma, após perceber como abriu mão de um julgamento sensato para adotar uma posição preconceituosa e parcial a respeito de Darcy desde o início.

"- Como foi desprezível o que fiz! - exclamou ela. - Logo eu, que sempre me orgulhei do meu discernimento! [...] Que descoberta humilhante! E, no entanto, que humilhação justa! Se estivesse apaixonada, não poderia ter sido mais miseravelmente cega! Mas a minha loucura foi a vaidade, não o amor. Lisonjeada com as atenções de um e ofendida com o desdém do outro, logo que os conheci, adotei o preconceito e a ignorância e despedi a razão, quando tive de optar!"

Todos que Austen apresenta em sua obra apresentam um raciocínio arbitrário e estratificado que muitas vezes é responsável por moldar os valores dos personagens na sociedade inglesa do fim do século XVIII e início do século XIV. Em muitos dos diálogos entre Elizabeth e Darcy podemos ver a disparidade entre suas visões de mundo, que tem influência direta da situação social e econômica que cada um ocupa. Elizabeth, por exemplo, é manipulada por sua própria implicância e aversão ao status de Darcy, uma vez que para ela sua posição social privilegiada sempre seria uma classe de ególatras ignorantes e mesquinhos. Além disso, muito do que movimenta os acontecimentos da narrativa parte das fofocas e rumores que faziam parte da rotina dos ingleses, o que na maioria das vezes foi responsável por construir a reputação de um indivíduo muito antes de sequer aparecer em cena, de forma fragmentada e falsa.


Quanto à família de Elizabeth, foi imaginada de tal forma por Jane Austen para que pudesse inserir ali claras críticas à sociedade inglesa: o sr. e a sra. Bennet tinham 5 filhas, uma condição patrimonial que não oferecia esperança de bons casamentos para elas e nenhuma perspectiva de um herdeiro do sexo masculino, e no entanto nenhuma das mulheres poderia herdar a casa e o dinheiro, por causa do instituto do morgadio, que transferia a propriedade para o parente masculino mais próximo (no caso dos Bennet, um primo distante que nem mesmo conheciam). Por esse motivo a sra. Bennet era sempre tão obcecada em casar suas filhas. Seu favoritismo por Jane vem da pretensão de que todas as outras deveriam seguir o modelo da primogênita: bonitas, refinadas, educadas, um pouco caladas e nunca demonstrando descontentamento. Casamentos por amor eram a exceção, e não a regra, uma vez que mesmo que não trouxessem felicidade, ofereciam proteção contra a necessidade. Tal fato causava imensa revolta em Elizabeth, mas todas as outras mulheres Bennet aceitavam esse destino como parte da vida de uma mulher.

"Quanto mais conheço do mundo, mas me sinto insatisfeita com ele; e a cada dia se confirma a minha crença na incoerência de toda personalidade humana, e na pouca confiança que podemos depositar na aparência de mérito ou de razão."

Achei a escrita da autora intensamente descritiva e um pouco arrastada, o que já é característicos nos clássicos do séc 18/19 que já li, e até chegar na metade, quando as coisas ficaram mais interessantes, eu tive que me forçar a terminar certos capítulos. Acho que só não desisti porque iniciei a leitura junto a uma amiga, e queria terminar pra gente poder discutir depois. Eram basicamente uma exposição do dia a dia da família Bennet nessa região inglesa menos urbana, com idas a bailes, tardes de chá com vizinhos, passeios e fofocas. O que quebrava a monotonia eram as conversas cheias de sarcasmo ferino entre Darcy e Elizabeth e alguns escândalos pontuais. Mas a partir da primeira declaração de amor inesperada é que a história passou voando para mim, o que compensa o perrengue que passei pra engatar essa leitura.


Apesar de suas obras não terem feito o sucesso que tem hoje enquanto ainda estava viva, a autora teve um grande papel na luta pela conquista do espaço das mulheres no âmbito literário, em uma época na qual predominavam livros escritos por homens, para homens. No geral, achei o livro bom, e me sinto orgulhosa de ter terminado meu primeiro livro da Jane Austen. Agora posso sair por aí falando que li "Orgulho e Preconceito" e pagando de culta nos clubinhos de leitura! E pra quem, como eu, fica com medo de ler clássicos por causa da linguagem diferente característica dos clássicos, posso dizer que pra mim, não foi o caso: logo no início você percebe que não é esse desafio todo e assim que você passa do primeiro capítulo já perdeu o receio e a leitura flui normalmente como qualquer outro livro.


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