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Resenha: Eu sou Malala - Malala Yousafzai e Christina Lamb

  • 23 de mar. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de abr. de 2020



"Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo."

Assim como muitas pessoas, eu já conhecia a história e luta de Malala antes de ganhar esta biografia de presente. A menina que foi baleada pelo Talibã por defender o direito das meninas à educação. A pessoa mais jovem a ser laureada com o prêmio Nobel. Entretanto, o livro entrega muito mais do que o proposto, e assim, nos é apresentado todo o cenário geopolítico do Paquistão desde sua formação em 1947 e da ascensão do Talibã no Vale do Swat, além de descrever com bastante riqueza a cultura patchum e os valores do Islã.


"Eu sou Malala" foi minha primeira experiência com uma biografia. Até demorei pra decidir começar; ficou descansando na minha estante até chegar o 8 de Março e eu perceber que não teria hora melhor para ler sobre essa mulher extraordinária. Achei que a escrita diferente de um livro não-ficção iria me desanimar de alguma forma, por ser mais técnica e sem os diálogos com a qual estou acostumada e que muitas vezes quebram a monotonia de um texto, mas pelo contrário: foi um dos livros mais interessantes que li no ano, e a rapidez com que terminei me surpreendeu.

"Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar."

Malala foi batizada em homenagem à maior heroína do Afeganistão, Malalai de Maiwand, uma espécie de "Joana D'Arc" dos patchuns. Desde pequena, recebeu uma criação mais livre, graças ao seu pai, que também é um ativista pelo direito de todas as crianças à educação, e dono de uma escola na cidade em que moravam, Mingora. Diferente das outras meninas muçulmanas, sempre foi encorajada a expressar livremente seus ideais; seu pai até mesmo a estimulava para participar de suas discussões sobre política, já que frequentemente estava no meio de reuniões e palestras, dando seus famosos discursos sobre o sistema educacional paquistanês. Para ele, a raiz de todos os problemas do Paquistão é seu sistema educacional, que faz com que pessoas ignorantes sejam facilmente enganadas por políticos ruins, que continuam sendo reeleitos sem melhorar a situação do país.

A falta de acesso à educação foi a principal razão do Talibã ter sido capaz de exercer tamanha influência, uma vez que em seu começo recrutava meninos de tribos patchuns mais afastadas, esquecidas pelo governo, onde nem mesmo havia escolas que lhes fornecesse a instrução mais básica. O Talibã no início não passava de uma estação de rádio por meio do qual pregavam seus ideais. Malala diz que eram até razoáveis em suas narrações, o que pode ter sido um fator decisivo para o tamanho de apoio de receberam. Quase não foi uma surpresa quando começaram a recrutar jovens e pedir dinheiro aos fiéis muçulmanos para defender o Islã da influência ocidental. Até mesmo as mulheres, que sabemos ser o alvo da maior carga repressiva, doavam suas jóias e os apoiavam. Apenas quando começaram a patrulhar as ruas, agindo como a polícia moral do vale, proibindo as meninas de frequentarem a escola, e ameaçando aqueles que descumpriam seus preceitos é que se percebeu o quão longe tinham chegado bem debaixo do nariz do governo, com uma grande quantidade de apoiadores e armas de fogo. Quando chegou ao ponto de explodirem escolas para meninas e matarem opositores, sua influência já era tão vasta que foram necessários vários meses de conflitos com o Exército para "libertar" o vale, período no qual milhares de patchuns, incluindo Malala e sua família, migraram para outras cidades para fugir da matança. A guerra para "salvar o islamismo" e retomar a paz após influências americanas terem causados tantas mortes no Afeganistão e Paquistão tornou-se um movimento composto por ideais radicais, mas que pouco tinha ligação com o Islã.

"O Talibã não é uma força organizada como imaginamos. [...] Trata-se de uma mentalidade, e essa mentalidade está espalhada por todo o Paquistão. Quem é contra os Estados Unidos, contra o sistema do Paquistão, contra a legislação inglesa, foi infectado pelo Talibã."

A fé de Malala e seus verdadeiros princípios são questões recorrentes na obra. Ela foi criada como muçulmana, e ao longo de todo o livro faz questão de desatrelar sua religião das ações dos terroristas, sempre voltando a destacar que o Islã que os Talibãs defendem não é o verdadeiro Islã, que prega a busca constante pelo conhecimento, sem as restrições que são impostas às mulheres, que é mais um fator cultural do que religioso . Não há passagem no Corão que obrigue a mulher a depender do homem do modo como ocorre com as mulheres no islamismo, e que as proíbam de frequentar a escola e ter uma educação, e por isso os talibãs não encontram base nos dizeres do profeta.

"Hoje todos sabemos que a educação é nosso direito básico. E não só no Ocidente; o Islã também nos deu esse direito. Diz que toda menina e todo menino devem ir à escola. No Corão está escrito que Deus quer que tenhamos conhecimento."

Algo que chamou bastante minha atenção foi o contraste enorme entre as cenas simples do cotidiano de Malala e os conflitos terríveis que teve que presenciar na infância e adolescência. Em um momento, estou lendo sobre uma excursão escolar que fez com suas amigas, e no próximo consta a descrição de uma praça onde eram jogados os corpos dos "infiéis" por onde passava a caminho do mercado. Ao longo da narrativa, Malala e Christina Lamb foram intercalando a vida da menina com os principais marcos políticos do país e o avanço talibã , ao mesmo tempo que seu ativismo começava a atrair a atenção do mundo e, por consequência, dos fundamentalistas. Conseguem imaginar a coragem dessa mulher, para desafiar um regime que estava constantemente a ameaçando de morte por defender seus direitos, e continuar indo para a escola com um alvo nas costas?

Parece algo tão distante de nossa realidade, crianças islâmicas vivendo em meio à guerra constante, tendo sua educação prejudicada por conflitos armados, que não acho que realmente conseguimos entender o tamanho dessa tragédia a não ser que vivêssemos na pele. As notícias que temos sobre terroristas vêm dos países ocidentais e exercem grande influência no modo como enxergamos o lado oriental: todos lembramos das repercussões do 11 de setembro nos EUA ou dos ataques à Paris, mas quem está ciente do sofrimento diário das pessoas no Paquistão, de pessoas como Malala? Depois de ter lido essa obra, ficou dolorosamente mais perceptível como os países sob a ameaça direta dos fundamentalistas, aqueles que realmente sofrem atentados em uma base diária, estão abandonados à própria sorte pelos países tidos como símbolo da luta pelos direitos humanos e liberdade.

"Meninas continuam a ser mortas e escolas, explodidas. [...] Não é só o Talibã que mata crianças. Às vezes, são ataques de drones, às vezes guerras, às vezes a fome. E às vezes é a própria família. Duas meninas da minha idade foram assassinadas ao norte do Swat por terem postado um vídeo dançando na chuva com seus vestidos e hijabs. Tudo indica que um meio-irmão as matou."

Eu ainda acredito no ideal quase que romântico de que cada livro que lemos deixa uma marca e nos moldam e penso que essa, dentre tantas outras, é uma obra que vai continuar me assombrando e maravilhando na mesma medida por muito tempo. E isso é bom. Este relato precisa te chocar, precisa mostrar que não estamos anestesiados diante de tamanha violência, que não perdemos a capacidade de nos horrorizar; não podemos banalizar essa situação e tratá-la como corriqueira. Malala não só nos conscientiza da dificuldade que é para uma criança ter direito à educação no Paquistão, como instiga a reflexão sobre todos os outros meio que fazem com que meninas não tenham acesso à escolas ou não possam frequentá-las ao redor do mundo, por causa das inúmeras questões culturais de gênero que as oprime e silencia.

"A todas as garotas que enfrentaram a injustiça e foram silenciadas. Juntas seremos ouvidas."




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