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Resenha: Escola de contos eróticos para viúvas - Balli Kaur Jaswal

  • 27 de mar. de 2020
  • 4 min de leitura

Antes de mais nada, sinto que deveria começar dizendo que, apesar do título do livro, este NÃO É um romance erótico hahaha. Recebi olhares engraçados quando comecei a ler no ônibus a caminho da faculdade, antes de começar o período de suspensão das aulas (espero que todos, na medida do possível, estejam em casa e saudáveis), e demorou pra perceber que era por causa do que o nome sugeria. O que só nos prova que realmente não se pode julgar um livro pela capa, porque essa é uma história que consegue encantar qualquer público, além de ter um projeto gráfico impecável, na minha opinião, e uma tradução espetacular (cortesia da TAG, que sempre faz um trabalho muito bom nas caixinhas que manda).


A história se passa em Southall, uma comunidade punjabi em Londres. Nikki, nossa protagonista, filha de imigrantes indianos, sempre lutou contra os costumes ultrapassados de sua família, e por isso foi morar sozinha no andar de cima do bar onde começou a trabalhar, enquanto busca descobrir o que fazer em sua vida após tomar a decisão de largar a faculdade de Direito. Um dia, de passagem por Southall, responde a um anúncio de emprego para ensinar um curso de escrita criativa à mulheres no centro comunitário do gurdwara (templo), mas no momento que pisa na sala de aula percebe que sua turma consiste em um grupo de viúvas punjabi analfabetas que querem aprender a escrever. Logo no início, as aulas sofrem uma mudança abrupta quando cai nas mãos das viúvas um livro erótico, e a partir dali os encontros se transformam em um espaço livre para conversar sobre um dos grandes tabus para mulheres punjabi, registrando contos sobre sexo e prazer. Sim, meus caros, o livro ainda tem sua cota de cenas hot.

"Aqueles encontros deram àquelas mulheres um forte sentimento de aceitação e apoio. Pela primeira vez na vida delas, puderam compartilhar abertamente seus pensamentos mais privados e saber que não estavam sozinhas."

O livro inteiro é um enorme contraste de culturas para o leitor – por refletir tanto da sociedade indiana, os moradores de Southall são mais tradicionais e conservadores, e vivem para manter a izzat - honra - da família e da comunidade, muitas vezes agindo como uma espécie de polícia moral uns dos outros. Para expor esses costumes com a devida autenticidade, a autora conta com sua própria experiência de vida como imigrante punjabi para dar voz aos personagens.

Balli inicia sua narrativa com duas tramas que se entrelaçam lá pela metade da obra, dividindo os pontos de vista entre Nikki, com seus encontros no templo para a produção dos contos com as viúvas, e Kulwinder Kaur, que administra os serviços comunitários para mulheres no gurdwara e vive à sombra das fofocas da comunidade acerca das misteriosas circunstâncias que envolvem a morte de sua filha Maya. Muito da história gira em torno do que realmente levou ao fim precoce da vida da menina, e toda a comunidade parece ter um entendimento tácito de que o que a polícia descobriu não é o que, de fato, aconteceu.


A partir das conversas de Nikki com as viúvas, a autora introduz a questão dos crimes de honra , que matam milhares de mulheres ao redor do mundo, na maioria das vezes a mando da própria família. Pais ou parentes que assassinam suas filhas, irmãs, sobrinhas e esposas que mancham sua imagem perante a comunidade, agindo sobre o ideal equivocado de que é melhor perder a vida do que perder a honra. Rapidamente percebe-se também outro problema em Southall: todos faziam vista grossa para esses crimes. Nikki fica horrorizada ao ouvir das mulheres como todas tem certeza que tal pai matou sua filha por ter fugido com aquele estrangeiro, ou aquele marido matou sua esposa por querer o divórcio, mas nenhuma nunca intervém, ou se pronuncia - "é algo que simplesmente não se comenta, Nikki, não nos metemos nos assuntos dos outros". Nesse quesito, aliás, foi que notei o maior desenvolvimento da história: as viúvas, ao final, começaram a intervir nessas questões veladas da comunidade , fazendo barulho e protegendo umas às outras em situações que antes não teriam "metido a colher" para ajudar. O curso de histórias eróticas estava mostrando àquelas mulheres que elas tinham voz, quando por muitos anos foram silenciadas em seus casamentos e na comunidade.

"Aquelas mulheres estavam acostumadas a dar a outra face quando injustiças eram cometidas porque é inapropriado se envolver, ou ir até a polícia e trair um dos seus. Mas não exitaram em me ajudar e se colocar em risco quando eu corria perigo. Elas sabem que são capazes de lutar."

Por fim, acho importante ressaltar que a escrita da autora facilita muito a leitura, porque apresenta diálogos abundantes, mas breves, que permitem acompanhar com muita facilidade as conversas tumultuadas das aulas com as viúvas. Além disso, ela não escreve parágrafos longos (amém por isso), o que pra mim arrasta muito a leitura. Recomendo demais que leiam essa obra maravilhosa - podem comprar na loja do site da TAG (por ainda ser uma obra inédita no Brasil), ou encomendar a edição em inglês, se não se importarem com o preço salgado de um livro importado.

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