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Resenha: Confissões do crematório - Caitlin Doughty

  • 14 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura
"A morte é a única certeza da vida. Então por que evitamos falar sobre ela?"

"Um livro para quem planeja morrer um dia". É dessa forma que Caitlin Doughty nos instiga a ler sobre o que talvez seja um dos maiores tabus do ser humano moderno. Afinal, quem de nós já parou para realmente refletir sobre a própria mortalidade? Morte, morrer, corpos, está tudo escondido da sociedade por causa da crescente tendência a ocultar o fim a que todos estamos fadados. Mas por que fazemos isso? Tenho certeza que depois de ler essa obra sua opinião vai mudar sobre a forma como tratamos nossos mortos, os rituais que realizamos com os cadáveres e a respeito da indústria funerária - alguém aí já tinha parado pra pensar sobre as empresas que tem o "monopólio" da morte? Porque eu não.


Desde pequena, a autora tem uma conexão estranha com as circunstâncias em torno do fim da vida, quando presenciou um acidente em um shopping em sua infância, o que viria a definir muito do seu comportamento durante os anos seguintes, seu TOC e sua curiosidade sobre o destino das pessoas depois de "baterem as botas", o que a levou a buscar um trabalho que a pusesse em contato com isso constantemente.

"Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma benção - é só mais um tipo mais profundo de pavor."

Aos 23 anos, quando consegue o emprego como operadora de fornos da funerária Westwind Cremation & Burial, Caitlin ainda tinha um pensamento parecido com o do resto da sociedade, apesar de pitoresco: queria ter sua própria funerária "divertida" de modo a esconder a face triste e macabra da morte por trás de festa, música e diversão. Mas suas experiências no crematório a levarão a uma conclusão que contradiz e até critica seus planos iniciais de promover funerais que nos enganam quando à real natureza do que é morrer. O interessante de acompanhar o amadurecimento das ideias da autora é que o leitor acaba por ter os mesmos questionamentos, e junto com ela vamos revendo nossas ideias pré-concebidas e sentindo o desconforto de perceber o quando de nossas vidas é permeado pelo medo da morte. Cada capítulo é separado para contar uma história diferente que aconteceu na Westwind, que dá a base para Caitlin introduzir os tópicos que quer discutir e desmistificar para o leitor.


Doughty tem uma escrita carregada de sarcasmo, o que achei imprescindível em um livro de mais de 200 páginas que lida exclusivamente com as diversas facetas da morte na sociedade contemporânea. Ela trouxe questionamentos que eu nem tinha ideia que me interessaria desenvolver, exatamente porque não conversamos sobre isso, sobre a "indústria da morte" americana, tipos de cerimônias funerárias, a concepção da morte para cada um e como o ser humano evoluiu ao longo dos anos para o nosso posicionamento atual: tudo gira em torno da máxima de esconder dos olhares do povo a verdadeira face do óbito e afastando-nos das ideias de cadáver, decomposição, fim. "Do pó ao pó" é o que mais assusta as pessoas, mesmo que inconscientemente.

"Podemos devanear ainda mais na distopia da morte, negando que vamos morrer e escondendo cadáveres de vista. Fazer essa escolha quer dizer que vamos continuar a morrer de medo e a desconhecer a morte e o papel enorme que ela tem em como vivemos nossas vida."

Uma crítica que a autora sempre volta a frisar em diferentes capítulos é em como a morte foi transformada em uma commodity e que isso foi um dos principais fatores que ocasionaram em sua perda de significado místico/ religioso e ritualístico, consequentemente perdendo espaço no nosso dia a dia. Ela reforça como passamos de sociedades que veneravam e respeitavam a mortalidade para seres que a comercializam.


Um exemplo disso é que há meros cem anos uma criança não entrar em contato com a morte seria um feito inédito, mas qual a probabilidade hoje de, mesmo adultos, nos depararmos com um corpo sem vida? Hoje em dia, ver um cadáver é todo um episódio na vida de um cidadão. E quando os vemos, costuma ser em cerimônias funerárias onde o corpo sofreu tal transformação química e estética que não aparenta sua ausência de vida, o que nos leva aos dois grandes polos problemáticos da indústria funerária que Doughty expõe: o embelezamento (pelo embalsamento) e a banalização da morte.


Embalsamar um corpo é uma prática extremamente cara, desnecessária e brutal para o corpo do falecido, além de ser um ritual (se é que pode ser chamado assim) completamente desprovido de significado e que apenas serviria para "embelezar a imagem da morte" perante os vivos. Por outro lado, temos a face oposta do espectro de ocultação da mortalidade que se dá pela banalização dos rituais funerários, por meio do descarte direto dos corpos por meio da cremação barata e de práticas mais extremas para a autora, como as encomendas de cremação online, no qual as pessoas lidam com a morte o mínimo possível com apenas o preenchimento de alguns documentos pelo computador. Essas práticas não contribuem em nada para mudar o tabu que é a morte no mundo moderno, apenas naturalizam a negação da finitude dos nossos corpos.

"Se os corpos em decomposição desapareceram da cultura (o que realmente aconteceu), mas os mesmos corpos em decomposição são necessários para aliviar o medo da morte ( realmente são), o que acontece com a cultura em que toda decomposição é escondida? Não precisamos criar hipóteses, nós vivemos nessa cultura. Uma cultura de negação da morte."

Criticando as diferentes formas que o ser humano moderno encontrou de rejeitar a realidade do fim da vida, Doughty defende o reconhecimento da morte, sua real presença e participação no nosso dia a dia, estimulando o leitor a considerar as vantagens de uma interação realista e sem subterfúgios com a mortalidade desde cedo, hábito que poderia curar muitas das mazelas da humanidade, como a cultura de obsessão pela juventude e os métodos medicinais de aumento de tempo de vida (que na maioria dos casos não implica em viver com qualidade, apenas viver mais).


São temas intrinsecamente conectados entre si e todos têm como origem a tentativa de adiarmos e escondermos o fato de que somos todos futuros cadáveres, e que não há nada que podamos fazer para evitarmos nosso destino. Se tivéssemos passado anos trabalhando em um crematório e entrando em contato direto com mortos, teríamos chegado às mesmas conclusões de Caitlin? Deixo minha admiração pela obra e pela autora por abrir nossos olhos para mais uma faceta humana ignorada por tantos séculos, e que agora talvez possa fazer mais parte de nosso cotidiano e nos fazer repensar a real motivação por trás de tantos de nossos hábitos corriqueiros.

"Há algo de extremamente perturbador - ou profundamente emocionante, dependendo de como você enxerga - no que está acontecendo com nossos valores sobre a morte. Nunca houve um momento na história do mundo em que uma cultura rompeu de maneira tão completa com os métodos tradicionais de descarte de corpos e de crenças relacionadas à mortalidade."



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